A Arquivologia Brasileira

Lançamento do livro da Prof.ª Angelica Marques em Brasília, durante o Workshop Internacional em Ciência da Informação (WICI)
O livro “A arquivologia Brasileira: busca por autonomia científica no campo da informação e interlocuções internacionais”, será apresentado nesta quarta-feira, dia 3 de dezembro, às 18:30h, na Faculdade de Ciência da Informação.
A pesquisa da professora focou na trajetória da Arquivologia como disciplina científica no Brasil. Tendo em vista as relações de Arquivologia com outras disciplinas, o conceito trabalhado foi o de “campo da informação”. Além desse, as interlocuções da Arquivologia brasileira com o pensamento e as práticas arquivísticas foram abordados.
Fizemos uma pequena entrevista com a professora antes do lançamento do livro. Confira um breve relato da professora sobre a experiência:
"O livro “A Arquivologia brasileira: busca por autonomia científica no campo da informação e interlocuções internacionais” é fruto de dez anos de pesquisa, especialmente da minha tese, que recebeu três prêmios. Buscamos sintetizar o texto da tese, sem, contudo, perder informações relevantes, em dois grandes capítulos: 1) um que situa o desenvolvimento histórico e a configuração epistemológica da Arquivologia no campo da informação, apresentando a sistematização e a circulação do pensamento arquivístico no mundo, seus principais marcos, ideias, cursos, obras, periódicos, eventos e instituições que contribuíram para a formação da disciplina e do arquivista; 2) o outro que contextualiza a trajetória da Arquivologia no Brasil, inserido-a no quadro de desenvolvimento da ciência e tecnologia nacional e destacando as interlocuções internacionais nesse contexto".
- De onde surgiu a ideia de fazer o livro?
Ao ingressar no Curso de Arquivologia da Universidade de Brasília (UnB), procurei por estudos acerca dessa disciplina. Afinal, eu precisava conhecer a área na qual eu estaria me formando alguns anos mais tarde...
Como esses estudos eram escassos e incompletos, contatei alguns professores a fim de desenvolver um projeto de iniciação científica sobre o tema. Foi quando conheci a Prof.ª Georgete Medleg Rodrigues, que, para minha surpresa, trabalhava a epistemologia arquivística e se disponibilizou a me orientar. Entre 2002 e 2003 desenvolvemos um projeto voltado para o mapeamento das pesquisas arquivísticas no Brasil. Esse projeto me inspirou a desenvolver uma pesquisa no mestrado (em Ciência da Informação, na UnB) que aprofundasse os seus resultados, estudando o histórico, os cenários e as perspectivas da Arquivologia brasileira. Ao concluir essa pesquisa, em 2007, imediatamente ingressei no doutorado (também em CI, na UnB), e busquei compreender quais e como teriam sido as influências internacionais na Arquivologia brasileira. Para minha surpresa, a pesquisa documental demonstrou que não se tratava de meras influências, mas de interlocuções, diálogos entre a Arquivologia brasileira e a internacional, num campo que extrapola a disciplina, o qual chamei de "campo da informação". Os resultados desses dez anos de pesquisa são apresentados no livro que estamos lançando.
- Falta no Brasil uma maior interlocução com outros países no campo da informação?
Desde os anos 1960, especialmente nos anos 1970, há uma tendência internacional, inicialmente liderada pela UNESCO, no sentido de integrar, harmonizar os estudos das disciplinas que têm por objeto o tratamento da informação (Documentação, Biblioteconomia e Arquivologia e, mais recentemente, Ciência da Informação e Museologia). Em alguns países, como em Portugal, essas disciplinas são conhecidas como "Ciências da Informação", no plural. Aqui no Brasil esta integração começa a dar os seus primeiros passos, já concretizados em faculdades que reúnem esses cursos; em periódicos e em eventos que conjugam temáticas de interesses dessas áreas, a exemplo do cenário internacional. Desse modo, aos poucos o Brasil parece seguir o modelo internacional, abrindo espaços para a interlocução dessas disciplinas tanto nacional como internacionalmente.
- Como podemos evoluir nesses aspectos centrais do livro?
Os resultados da minha dissertação demonstraram que a busca por autonomia científica da Arquivologia não se dá pelo seu isolamento, mas por seus diálogos com outras disciplinas. Ou seja, ao mesmo tempo em que a disciplina necessita de reconhecimento político, institucional e social quanto à sua identidade, ela comunga espaços e interesses com outras disciplinas que lhe são próximas em torno da gênese, organização e comunicação da informação. Como arquivista e como professora do Curso de Arquivologia, acredito que para alcançar a sua autonomia, sem perder de vistas as suas relações extradisciplinares, a Arquivologia precisa ter, no Brasil, mais programas de pós-graduação estricto sensu, nos quais possa desenvolver pesquisas com temas propriamente arquivísticos (hoje, temos apenas um programa, na UNIRIO).
- O quanto estamos atrasados nos dois temas se formos comparar com outros países?
Temos, basicamente, três grandes correntes do pensamento arquivístico internacional: 1) a francesa, tradicional quanto aos arquivos permanentes; 2) a norte-americana, voltada para a gestão dos documentos, a partir da Segunda Guerra Mundial; 3) e a canadense, conhecida como "Arquivística integrada", que busca articular a gestão dos documentos administrativos à preservação da memória. Ao estudarmos a trajetória da Arquivologia no Brasil, descobrimos que, além de conjugar essas três correntes, a disciplina passa a ter uma identidade própria: defendi que já temos "uma" Arquivologia do Brasil, considerando a expansão dos cursos de graduação, a criação do curso de pós-graduação stricto sensu, o crescimento e o aprofundamento das pesquisas na área, a regularidade dos eventos, bem como o aumento dos periódicos especializados em temáticas arquivísticas. Daí, vislumbramos a identidade da Arquivologia brasileira.
As outras duas questões estão estritamente relacionadas à essa identidade: na medida em que se institucionaliza como campo do conhecimento, a Arquivologia estabelece relações com outras disciplinas no e do campo da informação, tanto nacional como internacionalmente. Todavia, esse processo é complexo, dinâmico e lento.

